Primeiro, vamos pensar juntos naquilo que é o produto do processo. Para a maior parte das pessoas, é aquilo que atesta que o progresso foi bem sucedido – é a nota boa na prova. É a finalidade final (desculpem o pleonasmo). Afinal, a ênfase na boa nota e nos bons resultados é tanta que se perde de vista para quê, afinal, se está ensinando o aluno. O importante é sair-se bem na prova, não importa o conteúdo nem para o que serve.


E o que a prova avalia? Supostamente, aquilo que o aluno já sabe fazer sozinho. Algo que está dominado, “antigo” em termos de desenvolvimento. A prova, mesmo muito bem feita, não avalia o que o aluno está desenvolvendo mas ainda não faz sozinho, aquela pergunta que poderia até responder se fosse corretamente provocado pela professora ou mesmo por um colega que já desenvolveu aquele aspecto.


Em suma, a prova avalia aquilo que está parado. É o fim do processo, e não o processo. É o produto. Não há dinamismo aí. Se a prova serve para avaliar o processo de ensino-aprendizagem, ela o faz sobre o que está posto. Se fosse perguntado diferente, talvez o aluno tivesse se saído melhor. Mas não foi, e a nota foi dada.


Durante muito tempo, a escola contentou-se em ficar com esse tipo de resultado. E, pensando de um modo bem simples, a dinâmica é meio padronizada mesmo: conteúdo, prova, novo conteúdo. Muitos alunos que não têm uma dificuldade cognitiva específica aprendem a sobreviver a esse ritual, e podem se transformar em “bons alunos”, daqueles que passam no vestibular.


Mas quando entram na escola as outras pontas da curva normal – aqueles que têm deficiências intelectuais e aqueles que têm altas habilidades – esse “prato feito” passa a não ser o suficiente para a aprendizagem de todos. Aí, ou se olha para o processo ou se passa a acumular frustrações como professor e uma constante e crescente desmotivação para os alunos.


O aluno com deficiência intelectual aprende, sim. Progredirá, como todos os alunos, na escola. No entanto, seu ritmo será outro. O que não significa que vai ficar sempre “x” quilômetros atrás dos outros – irá rápido em alguns pontos, mais lentamente em outros. Olhar com cuidado para o processo passa a ser imperativo. Retomar o que ficou obscuro, perguntar-se constantemente sobre a melhor intervenção, e revisar as propostas. Se focar apenas no “produto médio esperado”, esse aluno estará sempre aquém. Mas se o comparar com ele mesmo, ou seja, como estava antes da sua intervenção e como está agora, utilizando critérios de avaliação objetivos, os resultados serão perceptíveis.

Com o aluno com altas habilidades ocorre algo semelhante. Ele irá ultrapassar rapidamente o “produto médio esperado”, e cabe focar no seu processo para propor estratégias mais eficazes e motivadoras.

Para a classe toda, a aprendizagem se torna mais dinâmica, pois novos pratos estão sendo servidos (nada de prato feito mais, oba!). E todos podem experimentar esses novos sabores, e ampliar suas capacidades. Bom para todos, sem dúvida.


Publicado originalmente em 27 de junho de 2017

(imagem: www.pixabay.com)

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