Já falei um pouco nos posts anteriores (aqui e aqui) sobre avaliação de alunos com deficiência e outras questões desafiantes. Na verdade, contextualizei um pouco a questão, o que é fundamental fazer, pelo menos a partir da minha concepção de educação. Explico: é pouco produtivo ou mesmo inútil considerar apenas um elemento da equação em detrimento dos demais. Para entender aluno, precisamos entender também professor, escola, currículo. Pelo menos dois elementos – aluno-professor, aluno-currículo, professor-currículo. Sem isso, qualquer análise se torna irreal, idealizada, porque fora de um contexto. Mas isso é assunto para outro post.


Entendo o processo de ensino-aprendizagem como uma equação de três fatores:

1) O que o aluno sabe?

2) O que eu quero que ele aprenda?

3) O que eu preciso fazer para isso?

E, como se trata de um ciclo, ao final dele deve-se voltar ao item 1.

 

Vamos começar considerando a unidade de análise aluno-currículo. Isso significa que na escola funciona um currículo, em que são enunciados conteúdos e objetivos a serem alcançados pelos alunos. O currículo, ou um determinado objetivo dele, é o fator 2 – o que eu quero que ele aprenda. Mas antes disso, eu tenho que saber o que o aluno sabe. E aí mora o primeiro grande desafio.


Realizar uma boa avaliação do que o aluno sabe é essencial para o processo. Infelizmente, na maior parte das vezes o professor identifica bem o que o aluno não sabe. Já tive vários diálogos do tipo:


[Professora] Ele não identifica o próprio nome, só quantifica até 3, não sabe cores…

[Eu] E o que ele sabe?

[Professora] O que ele sabe? Hummm… O que ele sabe…

[Eu] Sim?

[Professora] Puxa, que difícil, eu sei dizer bem o que ele não faz…


Pois bem. Sem identificar o primeiro fator, o que o aluno sabe, é impossível continuar um processo útil de ensino. É fundamental não deixar de fazer esse primeiro passo.


Depois, o que se quer ensinar. Você pode achar um conteúdo meio inútil, mas o fato é: essa deve ser uma discussão coletiva. Se o conteúdo está no currículo, todos os alunos devem aprendê-lo. Por que estou enfatizando isso? Para que não se “elimine” determinados conteúdos para um aluno devido à sua complexidade e à crença que o aluno não vai aprender isso. Por exemplo: “O que o Pedrinho vai fazer com frações? Ele nem sabe escrever o nome ainda!”. Contexto de novo, por favor. Se está no currículo, Pedrinho deve aprender, sim. Não dá pra eliminar o fator 2.


E aí vem o desafio menor: o fator 3. Por que menor? Bom, o fator 2 não traz desafio: é oferecer o mesmo conteúdo para todos (ou mudar o currículo para todos). A grande dificuldade está no fator 1, que é a identificação do que o aluno sabe. Se essa parte do processo é bem feita, o fator 3 já está 50% resolvido.


Como ensinar frações para o Pedrinho? O que é fração? Está claro para você? Podemos dizer, de forma simplificada, que fração é uma maneira de representar. O quê? Em quantas partes iguais um objeto foi dividido, e quantas partes eu peguei. Eu posso representar isso pela notação da fração. Se a pizza tem 8 partes e eu comi 3, a representação é 3/8. Até aí é básico.


Como eu transformo esse conteúdo em objetivos menores, que o Pedrinho pode ir dominando no seu tempo? Posso querer que ele compreenda que um objeto pode ser dividido em partes iguais. Posso começar com metade e terços, pois ele quantifica até três. Posso verificar se ele consegue pegar uma quantidade determinada de um objeto fracionado e mostrar a ele a notação.


Com isso, eu quero dizer que sim, é possível ensinar qualquer assunto para qualquer aluno, desde que nós, que vamos conduzi-lo no processo, dominemos o assunto de tal forma que consigamos enxergar quais os tijolinhos básicos para a compreensão do assunto que devemos destacar.

E, depois, cabe avaliar o processo – que vai ficar para o próximo post.

 

Publicado originalmente em 27 de junho de 2017

(imagem: https://br.freepik.com/fotos/pessoas)

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