A música torna os bebês mais inteligentes? Não, de acordo com a neurociência.

Já ouviu falar que manga com leite faz mal? Pois é. Esse é um bom exemplo de uma história que foi inventada e que, depois de popularizada, ficou com ares de verdade. Isso aconteceu na época do Brasil colonial, em que os senhores de engenho criaram essa história para evitar que os escravos consumissem leite, um alimento escasso na época (leia mais sobre isso aqui.)
Mesmo que esse mito já tenha sido derrubado, ainda deve ter muita gente que não acredita e, por mais que tenha vontade, não tomaria manga com leite de jeito nenhum. Um fenômeno parecido acontece com o neuromito.

O que é neuromito? É uma ideia derivada da pesquisa científica que foi refutada em algum momento, não sobrevivendo às verificações científicas posteriores. No entanto, de alguma forma, essa ideia caiu no gosto popular, e dificilmente consegue ser derrubada. O neuromito se alimenta das suas antigas raízes científicas, ainda que elas não existam mais, para manter uma aura de verdade que não tem base de sustentação.

O termo neuromito foi popularizado em 2002, após a publicação do relatório da OCDE Understanding the brain: the birth of a learning science (Entendendo o cérebro: o nascimento de uma ciência da aprendizagem) – veja um resumo (em inglês) aqui.
Existem vários exemplos de neuromitos. Por exemplo, a ideia de que não se pode perder tempo nos três primeiros anos de vida, pois o desenvolvimento cerebral é decisivo nessa faixa etária, e que há períodos específicos para certos assuntos serem aprendidos. Ou que ouvir música quando bebê torna as crianças mais inteligentes. Ou ainda, que usamos apenas 10% da capacidade do nosso cérebro. Tudo neuromito.

Já foi provado que se aprende durante toda a vida. Portanto, os três primeiros anos são uma fase de intenso desenvolvimento, mas não a única. Não se fala mais em períodos críticos de aprendizagem (tipo “é agora ou nunca”), e sim em períodos sensíveis, em que as condições são mais favoráveis. Isso não significa que uma pessoa idosa não possa aprender – muito pelo contrário.
A música não torna os bebês mais inteligentes. Essa crença já fez muitos CDs de música para bebês tenham sido vendidos e até mesmo distribuídos por governos estaduais no Estados Unidos para atuar como medida preventiva de problemas no desenvolvimento infantil. É o chamado efeito Mozart.

Esse neuromito teve origem numa pesquisa realizada por dois cientistas da Universidade da Califórnia no início da década de 1990. A pesquisa investigou efeitos da Sonata Para Dois Pianos em Ré Maior (K.448) de Mozart em pequenos grupos de universitários que, após ouvir a sonata, obtiveram um aumento temporário no seu desempenho em tarefas de raciocínio espaço-temporal. Os resultados não conseguiram ser reproduzidos por outros pesquisadores, o que invalida o estudo do ponto de vista científico. Independentemente disso, o efeito Mozart caiu no gosto popular, e até hoje muita gente acredita que a música clássica aumenta a inteligência das crianças.

A questão do uso de apenas 10% do cérebro é improcedente por motivos óbvios: como um órgão que consome cerca de 20% da energia do nosso corpo poderia funcionar a 10% da sua capacidade? O que na sua origem foi, muito provavelmente, uma força de expressão para enfatizar a potencialidade cerebral, acabou virando anúncio do tipo “use 100% do seu cérebro”. Ou ainda filme, como Lucy, em que o cérebro da personagem principal, sob o efeito de uma potente droga, consegue atingir 100% do seu funcionamento. Boa ficção científica, nada mais.

E qual a relevância do neuromito para a educação? Como comentei essa semana no meu vídeo sobre neurociência e educação, os neuromitos são um prato cheio para capturar professores incautos e maravilhados com os progressos da neurociência. Muitos cursos surgem com esse tipo de promessa maravilhosa – como trabalhar as dificuldades de aprendizagem através da “neuroeducação”, por exemplo (o prefixo “neuro” é essencial para esse tipo de “neuroproduto).

Mas ao se examinar na prática esse tipo de curso, percebe-se que muito pouco é acrescentado além do “neuro” antes do nome. A interlocução entre a sala de aula e os achados da neurociência está mais próxima, na atualidade, das boas intenções do que das ações efetivas. A difusão de neuromitos entre os educadores é comum. É preciso se conhecer mais sobre neurociência para poder separar o que é promessa falsa do que é pesquisa com embasamento sério. Bem, pelo menos se achava isso.

Num artigo recentemente publicado, uma equipe de cientistas norte-americanos pesquisaram a crença em sete neuromitos populares com três grupos diferentes: (1) educadores, (2) pessoas familiarizadas com temas neurocientíficos e (3) público em geral. O público em geral teve maior número de pessoas que concordavam com os neuromitos (68%). Esse número diminuiu em educadores (56%) e em pessoas que conhecem mais neurociência (46%).

Observem que a diferença entre os conhecedores e os educadores é de 10% apenas – ou seja, saber mais sobre neurociência causou um avanço relativamente pequeno na derrubada das crenças em neuromitos. A conclusão é de que uma formação em neurociência pode ajudar, mas não elimina a crença nos neuromitos.

Para concluir, não há muito como fugir: informar-se sobre o assunto continua a ser a solução mais sensata. Talvez o que precise ser melhorado é a forma como os educadores estão sendo formados sobre o tema.

 

Publicado originalmente em 23 de agosto de 2017

(imagem:

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