As aulas presenciais estão progressivamente sendo retomadas no Brasil – como fica, nesse cenário, o papel das tecnologias digitais, e do chamado ensino híbrido, que se fortaleceu e ocupou um lugar na escola mais proeminente nesse momento? O que precisa mudar na educação, e o que efetivamente já mudou pelo legado da pandemia?

Gostaria de fazer algumas reflexões a partir do artigo de Gert Biesta Digital primeiro ou educação primeiro?

Podemos começar definindo o ensino híbrido, e analisando algumas falas que circulam mais popularmente sobre esse instrumento de trabalho (atenção para a palavra “instrumento”, ela é importante aqui).

O ensino híbrido pode ser definido basicamente como aquele que agrega aulas presenciais e aulas remotas. Mas será que ele é tão novo assim? Num certo sentido, como Biesta lembra, a educação sempre foi híbrida, ou seja, sempre misturou estratégias diversas, e o que muda é o tipo de tecnologia envolvida. Uma lousa é um instrumento tanto quanto um computador. As aulas do antigo Instituto Universal Brasileiro, fundado em 1941, eram enviadas em apostilas impressas através do correio, em um sistema conhecido como ensino por correspondência. Assim, o hibridismo não é novidade em educação, e nem será através dele que as dificuldades da educação brasileira serão finalmente solucionadas.

A educação conhece bem esse movimento de “moda”, ou seja, a eleição de uma determinada modalidade ou inovação que surge, de tempos em tempos, prometendo revolucionar práticas antigas e ineficientes. Foi assim com o construtivismo, com o ensino por competências, com os temas transversais e com o ensino por projetos, apenas para citar algumas. Não estou criticando essas vertentes educacionais (que possuem muito valor) e sim esse movimento de tendência, de onda nova que promete resolver tudo. E a onda agora é o ensino híbrido.

Mas uma coisa que todas as ondas têm em comum é a crítica ao trabalho do professor, como bem lembra Biesta. No fundo, no fundo, essas propostas concluem que o grande problema é que o professor não sabe fazer – não sabe fazer projetos, não alfabetiza segundo o construtivismo, não usa os recursos tecnológicos para ensinar de forma a oferecer um ensino híbrido. A questão então passa a ser contratar quem preencha essa lacuna e capacite o professor.

Esse argumento é bastante perverso  – no caso do Brasil ainda mais, em que a profissão docente padece de uma desvalorização que é histórica. É importante lembrar que há muitos interesses por trás da oferta de formação de professores e da implementação de tecnologias digitais de ensino – para ficar nos exemplos de Biesta, Apple, Google e Pearson estão bastante dispostos a preencher essa lacuna.

Aqui é a hora de resgatar a palavra “instrumento”. Olhar para o computador como um instrumento significa que ele é um recurso a serviço da execução dos objetivos da educação – tanto quanto o mimeógrafo ou o projetor de transparências. Qualquer política de qualificação docente deve olhar para esses objetivos, e não para o instrumento em si, como parece ser o caso dos entendimentos equivocados sobre o ensino híbrido.

O fundamental é saber qual é o propósito da educação. Biesta menciona não um, mas três propósitos, ou domínios de propósitos. O primeiro é a qualificação, que implica em promover os conhecimentos que irão capacitar os alunos para lidarem com o mundo. Em seguida, a socialização, ou o acesso aos saberes acumulados desenvolvidos pela sociedade, bem como ajudar os alunos a encontrarem seu lugar neles. Por fim, o trabalho fundamental da subjetivação, que se refere a tornar o aluno o sujeito da sua própria vida, capaz de escolher seus caminhos e não ficar refém do que é alheio a seus propósitos. Particularmente, prefiro essa designação de subjetivação ao tradicional “formar o cidadão crítico…”, acho mais relacionada ao que considero o fundamento da educação, que é a humanização dos indivíduos, tornando-se únicos ao mesmo tempo em que fazem parte do tecido cultural humano.

Nas palavras de Biesta:

Cabe a nós, educadores, descobrir como podemos equilibrar as demandas desses três domínios, tendo em mente que não há sinergia perfeita entre os três, o que requer que nos envolvamos com as tensões e consideremos possíveis trocas entre os três domínios. E só então passamos para a questão de ‘como’, que é a questão dos meios que devemos utilizar para dar forma ao trabalho com nossos alunos. Aqui devemos ter em mente que nunca se trata de encontrar os meios mais eficazes para realizar determinados fins, porque na educação a maneira como fazemos as coisas também importa para o que buscamos alcançar.

São reflexões importantes para não se perder de vista o que de fato importa. Não se trata de quantidade (despejar mais horas de escola para os alunos ou mais formação de professores), mas de qualidade, ou seja, fazer as escolhas certas e que atendam aos objetivos fundamentais e inegociáveis da educação, para o qual as estratégias são instrumentos voltados a sua consecução.

 

(imagem: Freeimages)

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