“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem. “
Bertold Brecht

A frase do dramaturgo alemão que abre o post me inspira a escrever esse texto (desabafo) em três atos.

Primeiro ato: a professora

Ensina Língua Portuguesa para a EJA*. Já poderia estar se aposentando, mas como sobreviveria sem trabalhar? Quando começou a ensinar, a escola era diferente, conseguia desenvolver conteúdos com a turma. Como uma espécie de sacerdotiza, queria conquistar corações e mentes para a literatura. Hoje mal consegue que prestem atenção a pequenos trechos mastigados. Que futuro terá esse país em que os jovens da escola pública recebem uma formação tão superficial? Gostei que jogassem ovos, sim. Podem me perseguir por isso. Não vou me calar. No meu sonho, milhares de ovos são atirados do céu e vocês são soterrados.

Segundo ato: o aluno

Eu tenho um ódio que não cabe em mim. Cada vez ele cresce mais. Aguardo sem paciência o dia em que ele vai me matar. Lá na escola eles sabem quem eu sou. Sussurram. Têm medo de mim. Isso mudou – antes, eu era invisível. Eu não sou um monstro. Escapei por um triz do murro do pai. A mãe acha que fiquei assim porque ele bateu minha cabeça na parede. Odeio a escola, por isso me mandam pra lá. Ainda não posso ir pra cadeia. O ódio é grosso, preto, que nem óleo queimado e sujo. Eu não tenho palavras para descrevê-lo. A literatura me foi negada. Não tenho metáforas. Só me resta o murro.

Terceiro ato: a sociedade

Manda pra EJA (Educação de Jovens e Adultos). Lá cabe tudo. Todo o fracasso do sistema de ensino. Aqueles que incomodam, não se encaixam, não aprendem. Pra rua é que não se pode mandar, pois defendemos a inclusão. Eles desistem logo, é preciso ter calma. Cada vez se ensina menos, se paga menos, se desvaloriza mais o professor. O que continua inchado é o discurso. Aprendam a aprender, sejam voluntários, não se aposentem. Desapareçam logo nas estatísticas, vocês que não se encaixam e criam problemas nas nossas escolas pobres e rasas (ao invés de agradecer nossa bondade). Procurem brioches para comer, temos coisa mais importante pra tratar. Famílias desestruturadas, quer mais o quê ? A culpa é sempre da família. Por que não diminuem a maioridade penal? Lincha!

Publicado originalmente em 30 de agosto de 2017
(foto: Matteo Canessa – www.freeimages.com)

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