Cheguei para fazer a observação de aula na turminha de 4 anos. A queixa sobre o Lucas envolvia o seu comportamento agressivo – uma criança sem limites, que não atende a professora e bate nos colegas. Faz o que quer, e quando se tenta negociar com ele, começa um processo muito desgastante – em que os adultos acabam sendo vencidos pelo cansaço.

É fácil reconhecer o Lucas. Ele é o único aluno que está desenhando na lousa, enquanto a professora chama os demais para sentarem-se com ela para ler uma história. Ela chama o Lucas, que nem se dá ao trabalho de responder. Continua desenhando.
A professora começa a contar a história – o livro, na minha opinião, não é muito atraente. Os desenhos são pequenos, difíceis de chamar a atenção. É um texto rimado, com muitas palavras desconhecidas dos alunos. Falta uma narração mais animada e intensa da professora, enfatizando a sonoridade. Com isso, a história fica monótona, o que se percebe pela quantidade de pessoinhas levantando, esticando as pernas, cutucando o próximo, entre outros…

Os desenhos do circo começam a aparecer na lousa do Lucas. Ele desenha e narra o que está fazendo. Logo uma outra aluna se junta a ele – “ela pode ficar, eu deixo, ela é minha amiga”. Desenhar na lousa é uma delícia (eu adoro), e aposto que muitas crianças estão querendo se juntar ao Lucas e a sua coleguinha devidamente autorizada por ele.

Quando converso com a coordenadora, fico sabendo que a família do Lucas tem muita dificuldade com ele. O pai parece admirar sua postura de “dono do mundo”, e ninguém consegue contrariá-lo. Um pequeno ditador em construção.

Lucas não está sozinho. É muito frequente receber esse tipo de queixa – aliás, tenho observado que a quantidade aumenta a cada ano. Em alguns casos, a criança desestrutura a escola completamente: as famílias se unem para expulsá-la, entra o Conselho Tutelar, professores entram de licença de saúde, entre outros sinais de que o caos se instalou.

Quando falamos sobre a questão do comportamento, as famílias ficam ansiosas, pois querem saber o que estão fazendo de errado. Ou melhor: elas até sabem, e querem saber como fazem para sair disso. A escola, por outro lado, consegue identificar em o que está sendo feito de errado – contudo, enxerga melhor o que os outros estão fazendo de errado, e tem pouca reflexão sobre o que poderia fazer para melhorar a situação.

Vejamos o caso do Lucas: por que ele pode desenhar na lousa enquanto todo mundo tem que sentar para ouvir a história? Sim, eu sei que presenciei um mero punhado de minutos de uma complexa interação professora – Lucas – turma – escola – família que se constitui de uma forma única e contextualizada. Mas a grande vantagem de alguém de fora vir fazer uma observação é poder fazer perguntas óbvias. Essas perguntas são uma boa pista para pensar o que está dando errado ali.

É possível que a professora responda que é desgastante entrar em embate com ele (eu sei, presenciei o comportamento do Lucas, e não é fácil mesmo). Assim, é melhor ele ficar na lousa, pelo menos não fica batendo em ninguém e ela pode contar a história (quase) em paz.

Mas quando Lucas fica na lousa desenhando ele está aprendendo algo – por exemplo, que as regras para ele são diferentes. Então, como a escola pode dizer que Lucas não respeita as regras, se ela é a primeira a desrespeitá-las quando permite que ele faça uma atividade diferente dos demais, na hora em que ele quer?

“Ah, então eu tenho que forçar ele a sentar com os outros e ouvir a história?” Essa resposta dá uma tese de filosofia. Primeiro, como assim, “forçar”? Qual é a natureza da proposta pedagógica que está acontecendo na turma de 4 anos (é bom não esquecer)? A hora da história jamais deveria ser forçada – as crianças é que deveriam ficar ansiosas para participar. Segundo: quem disse que o Lucas está fora? Lá na lousa, enquanto desenhava um cirquinho e um palhaço, estava participando da hora da história também. Será que a professora consegue observar isso? Ou, para ela, participar é sentar e seguir com os olhos as figurinhas pequenas do livro que está sendo mostrado?

Não, “forçar” é algo que não se aplica. Mas o que eu sempre falo para as professoras é que elas precisam se antecipar, para que a proposta da atividade seja delas (elas são a autoridade na sala) e não do aluno que quer subverter a rotina. Explico: a professora conhece o Lucas. Sabe que ele gosta de desenhar na lousa. Está vendo que ele está criando uma relação autoritária com os colegas ao escolher quem pode e quem não pode desenhar na lousa. Ao invés de tentar ignorar isso para se poupar do desgaste (o que nunca dá certo), que tal terminar a história dizendo: “agora nós vamos TODOS para a lousa fazer um lindo desenho do circo!”. Dessa forma, ela inclui o Lucas, e principalmente, autoriza sua atitude. É como se dissesse: Lucas, eu sei que você adora desenhar na lousa, assim como todas as crianças, então eu estou te convidando para isso. Nessa perspectiva, a subversão do Lucas é lida e integrada pela professora, sem entrar em embates improdutivos e sem se eximir de intervir.

Faz toda a diferença ser autorizado ao invés de “roubar” o momento de desenhar na lousa. A principal é que a professora se firma no lugar de quem tem a autoridade na sala, e sua autoridade é exercida em nome de todos. É uma mensagem que o Lucas precisa entender – e não há outro jeito de fazê-lo aprender isso, a não ser através do exemplo e da vivência. Mas, antes do Lucas, a professora e a escola precisam exercitar a sabedoria de se antecipar, colocando em jogo todo o saber que têm sobre os alunos – e que muitas vezes deixam de lado em nome de um comportamento idealizado.

 

Publicado originalmente em 19 de julho de 2017

(imagem: Pixabay – Bessi)

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