Talvez seja o desejo intenso de quem trabalha com inclusão escolar há tanto tempo que me faça querer acreditar que nós, enquanto sociedade, já avançamos muito nessa questão. Fico me perguntando isso quando vejo notícias como estas duas, divulgadas semana passada. Será que avançamos mesmo? Ou será que quero acreditar que sim? Ou será que o mundo está enlouquecendo como um todo, pois notícias absurdas sempre se fazem presentes nas mais diversas áreas? Independente da resposta, é preciso, sim, falar sobre inclusão escolar. Agora mais do que nunca.
A primeira notícia vem da Argentina, em 5 de setembro de 2017. Colégio religioso (?!) San Antonio de Padua. Num grupo de Whatsapp, mães comemoram a mudança de sala de um aluno com síndrome de Asperger (denominação de uma manifestação do Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, caracterizada por uma inteligência acima da média e dificuldades na comunicação, entre outros aspectos). Segundo as reportagens do El País e do Globo, havia um movimento de pressão para que a escola mudasse o aluno de turma já há alguns meses. A conversa foi denunciada pela tia do aluno e viralizou na internet.


O representante da escola comentou:
O que não esperávamos era essa comemoração e essa alegria pela decisão. Isso está errado. Precisamos conversar com os pais. Não é normal.
Assim como no Brasil, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência é lei na Argentina, e este tipo de ação pode ser considerado discriminação contra a pessoa com deficiência.
O psicólogo Guillermo Fouce, ouvido pela reportagem, observa o aumento de atitudes discriminatórias na Espanha por motivos étnicos e religiosos, mas ainda pouco expressivo no que se refere a alunos com deficiência, e enfatiza que a tarefa da educação inclusiva não pode ser deixada apenas às escolas e professores, cabendo à família e comunidade fazer a sua parte. A lacuna fica clara com a atitude dos familiares.
A segunda notícia vem de Belo Horizonte, e aconteceu no dia seguinte, em 6 de setembro de 2017. Circulou na rede social a foto de um aluno com paralisia cerebral deixado para trás pela escola num passeio ao cinema. Segundo as reportagens do Uol e do R7, o aluno João Paulo foi deixado na escola com um funcionário durante as quatro horas em que durou o passeio.

A mãe relata que o aluno frequenta há nove anos escolas que fracassaram ao colocar em prática a inclusão escolar. Nem para a festa junina foi convidado esse ano, segundo ela. Entre os motivos, alegam que fazia frio ou que não sabem como ele vai reagir, que grita e levanta a perna. Sobre o exemplo de educação da escola, ela questiona:
Essas crianças estão aprendendo o quê? Estão aprendendo a desrespeitar. Estão aprendendo que uma pessoa não merece ser colocada como ser humano.
Em ambas reportagens, os órgãos responsáveis pelas escolas tomaram providências após o ocorrido, realizando reuniões e enfatizando que essa não é a política defendida pelos referidos órgãos.
Eu entendo as alegações dos gestores educacionais, mas creio que eles e nós todos que trabalhamos com educação deveríamos nos perguntar: onde estamos errando? Porque, entre a lei e as políticas educacionais, e o o João Paulo e seu colega argentino, tem alguma coisa se perdendo no meio do caminho. E é alguma coisa muito importante.
Enquanto isso, vale o alerta destacado pelo psicólogo Fouce: a sociedade precisa conversar sobre isso. Nesses tempos cada vez mais individualistas, é preciso que as famílias entendam que o respeito às diferenças é respeito ao seu próprio direito numa sociedade pluralista. Na medida em que desrespeitamos o direito alheio, deixamos o nosso direito à deriva. Infelizmente, muitas pessoas só se sensibilizam com determinadas questões como a deficiência, o desemprego e a péssima situação da saúde pública, para citar alguns exemplos, quando a situação bate à porta da sua casa.
Nós ainda não nos fortalecemos como sociedade democrática – no sentido em que uns protegem os outros. Nossa união é que faz com que os direitos conquistados a duras penas sejam preservados. Não somos democráticos ainda, e tem gente já falando em volta da ditadura. Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína, disse Caetano Veloso.
Fazer com que a lei seja cumprida está fora de discussão. É preciso ser punido legalmente para respeitar as leis – não é isso que queremos para os políticos corruptos? Enquanto isso, a pergunta continuará a nos incomodar – onde estamos errando? -, até que consigamos encontrar uma resposta razoável e mudar alguma coisa.
Publicado originalmente em 13 de setembro de 2017
(foto: Freeimage – St. Mattox)