É comum encontrar em textos que discutem problemas mais complexos, que admitem uma variedade de soluções, frases do tipo: “não existe receita pronta para…” (preencha as reticências de acordo com o tema).
Essa frase sempre me incomodou um pouco. Os mais cínicos podem dizer que o autor, na verdade, não sabe a receita – então, fica floreando uma resposta que não tem. Mas não é bem isso.
Pode ser que o autor esteja assumindo sua ignorância diante do tema. O que, a princípio, não teria problema nenhum, se não encobrisse, aparentemente, uma outra intenção.
Se o leitor ficar com a ideia de que o autor ignora a receita, o texto falhou na dose. A ideia não é transmitir o não saber do autor – pelo contrário. É preciso produzir no leitor a sensação de que o autor sabe a resposta, mas não vai compartilhá-la.
Tem um ar de humildade, temperado com incentivo à autoria de quem lê, mas deixa transparecer uma certa arrogância de quem sabe o que fazer mas não compartilha, pois pretende que aquele outro (preguiçoso), que está lendo o texto ou ouvindo a conversa, construa seu próprio caminho.
Pode ser uma forma de valorizar o que tem a dizer? Talvez. Mas o ponto problemático, na minha opinião, é que aquele que fala que não tem receita (ou que não vai dar a receita) pressupõe que o leitor espera uma receita.
E daí o texto fica com um ar desonesto. Eu pergunto: qual é o problema de dar a receita, de compartilhar um caminho, de contar como fez? Por acaso se acredita que aquele outro que escuta é uma folha em branco, em que a receita irá definir completamente a maneira de agir? Um robô, que vai copiar nos mínimos detalhes uma atividade? É como se o autor, tão preocupado em incentivar a criatividade do leitor, jamais pudesse permitir que o pobre ingênuo o copie e se atrofie.
Ora, eu posso contar como eu faço um bolo de fubá. Mas se você for seguir a minha receita, pode querer tirar a erva-doce, porque não aprecia o gosto. Por que não se considera que aquele outro que ouve a receita é um co-criador? Alguém que vai ouvir e tentar imitar, mas também vai modificar, transformar, criar sua própria receita, mais adequada às suas necessidades?
Eu costumo dizer em formações que não tenho o menor problema em dar receita – resta saber se alguém vai gostar ou seguir. É a minha receita, é a forma como eu vejo a questão, é o resultado (provisório) a que cheguei após minha experiência e reflexão pessaol. Pode fazer igualzinho, se quiser – só que nunca sai igual, é sempre transformada, porque somos seres diversos, mesmo. Eu faço assim – se servir pra você, ótimo! Se não, bora inventar outra forma de fazer.
E não adianta dizer que deu errado porque você seguiu a minha receita – na hora que você faz a minha receita, ela se transforma em sua, invariavelmente. Fica com a sua cara, não tem jeito.
É preciso construir diálogos mais horizontais, compartilhar nossas receitas sem medo, e assumir que o nosso destino é sermos criativas, transformadoras e que podemos criar receitas cada vez melhores.
Publicado originalmente em 6 de setembro de 2017
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