O tiroteio começou. Infelizmente, isso parece ter virado rotina. O barulho dos tiros deixa as crianças da escola em pânico, assustadas e chorando. O professor as leva para o corredor central, mais protegido, e fica cantando e tocando violão para elas por cerca de quarenta minutos, até que as coisas lá fora se acalmem e as criança fiquem mais tranquilas.
Onde isso aconteceu? Aleppo? Kabul? Não. Foi na favela da Maré, Rio de Janeiro, Brasil. O absurdo chegou a ponto se serem criadas páginas no Facebook para alertar a população sobre onde está acontecendo tiroteios, a fim de que possam evitar o local e se proteger.
O professor Roberto Oliveira se recusou a ser chamado de herói por conta do episódio. Disse que heróis são todos no Rio de Janeiro. E completou:
“A minha missão é educar, ensinar e procurar caminhos cada vez melhores. Para ajudar essas crianças, principalmente nessas áreas mais conflitantes. Eu espero que outras pessoas tenham coragem e fé para continuar seus trabalhos. Eu só vejo solução para o mundo e o Brasil através da educação” (grifo meu).
É muito triste pensar em crianças tão pequenas tendo que ser heroínas. No torpor social em que vivemos hoje, nesse momento em que a sociedade assiste paralisada acumularem-se atrocidades políticas, econômicas e sociais, fico cada vez mais certa de que os sucessivos governos brasileiros não fazem a menor ideia do prejuízo ao futuro que estão sedimentando ao negligenciar a educação no país.
O filósofo americano John Bruer, presidente da Fundação James S. McDonnell, tem tido uma trajetória reconhecidamente importante na articulação entre neurociência e educação. Em 1999, ele publicou o livro The myth of the first three years: a new understanding of early brain development and lifelong learning (O mito dos três primeiros anos: um novo entendimento do desenvolvimento cerebral inicial e a aprendizagem ao longo da vida, não traduzido em português). No texto, Bruer destaca que a ideia de que os primeiros três anos de vida de uma criança irão determinar se ela se tornará um adulto bem sucedido e inteligente é baseada em um entendimento equivocado das pesquisas neurocientíficas. Com isso, aponta ele, os pais acabam se focando excessivamente na educação nessa fase da vida em detrimento dos anos seguintes, tão importantes para o desenvolvimento quanto os iniciais.
A ideia é de que o cérebro se desenvolve ao longo de toda a vida. Assim, estimular uma criança a ler quando ela tem dois anos equivale a obrigá-la a fazer musculação – afinal, o desenvolvimento muscular é tão expressivo quanto o cerebral nessa fase.
Partindo desse princípio, os enormes prejuízos que as crianças das escolas da Maré, no Rio de Janeiro – além do pavor (que por si já bastaria), como a redução do número de aulas devido aos toques de recolher e tiroteios -, poderiam ser revertidos?
Sim, se considerarmos a enorme plasticidade do cérebro infantil. Mas e daí? Para que isso aconteça, alguma coisa tem que ser feita! Não dá pra aliviar a consciência pensando em possibilidades científicas que, na prática, são negadas e continuarão a ser negadas para essas crianças.
A criança está na escola. Tem merenda, comeu. Ganhou uniforme. O IDEB é mais ou menos, mas qual não é? Vamos ter fé no futuro. E isso basta para reverter os prejuízos? Claro que não. Prejuízos sutis, muito além da compreensão de políticos focados no popular comida + uniforme. Por exemplo, esses que aparecem na reportagem O desafio de educar crianças em dias de guerra:
Em outro trabalho, no Ciep Elis Regina, a proposta era fazer as crianças pensarem sobre como poderiam combater o mosquito da dengue. Um menino desenhou um helicóptero atirando sobre uma nuvem de mosquitos. Outro imaginou um homem apontando um fuzil para o Aedes aegypti. São as marcas invisíveis da guerra nas crianças da Maré.
Esses prejuízos invisíveis para os governantes gritam na cara dos educadores todos os dias. Não é de espantar que professor é uma das profissões com maior índice de depressão. É desolador ter consciência de que o futuro lhe está escorrendo pelas mãos. Sim, professor Roberto, nossas crianças são heroínas.
Publicado originalmente em 5 de julho de 2017
(foto: reprodução do Facebook)