Foi com alegria que li o post no Facebook da professora Maria Aparecida Moysés contando que a entrevista que deu ao Portal Unicamp (leia aqui) havia ultrapassado a marca de 1 milhão de compartilhamentos. Sem dúvida, uma grande vitória, considerando quem está do outro lado do campo de batalha: a toda-poderosa indústria farmacêutica.

A ilusão do medicamento talvez seja uma das mais poderosas formas de ideologia vigentes nos dias de hoje. Para um mundo rápido, em que a auto-reflexão e o auto-conhecimento são perda de tempo, nada mais apropriado do que uma pílula mágica, capaz de eliminar todos os problemas.

O problema é que o ponto chave, aqui, são as crianças. Que lugar que elas ocupam nessa sociedade? Como a educação, esse processo difícil, dos portadores do futuro pode ser garantida em suas condições mais básicas, como atenção suficiente, amor, aconchego, segurança, entre muitas outras?

Educar é um processo “slow-food” – o contrário de fast-food. Precisa de paciência, e muitas vezes não se colhe aquilo que se plantou – as futuras gerações é que colherão. No desejo pela rapidez, muitos pais se vêem frustrados porque aquele ser real, com sua sofreguidão por esse contato profundo, não combina com aquelas crianças bonitinhas dos comerciais. Sobrevêm uma grande desilusão, um balde de água gelada na idealização do que é ser responsável pela educação desse ser.
Esvaziados de recursos – afinal, são famílias dos nosso tempos loucos e líquidos -, buscam no mercado (que é onde costumam buscar suas respostas às necessidades mais básicas) as soluções. E o mercado não falta nessa hora: remédio pra mamãe, pro papai e pro filhinho.

As consequências nefastas disso são bem apontadas pela professora Maria Aparecida Moysés: um verdadeiro genocídio do futuro, expondo as crianças a anfetaminas cujo efeito é semelhante à cocaína, criando uma multidão de zumbis anestesiados (que conveniente, não?).

A decisão de dar ou não remédios aos filhos é bastante controversa. Conheço uma pediatra que me contou que as famílias chegam com o diagnóstico de TDA-H (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) pronto e intimam o médico a prescrever a medicação. É compreensível, afinal, não é esse o “melhor tratamento” alardeado pela mídia? E que família, em sã consciência, não quer o melhor para seus filhos?

Só que não é bem assim. A professora Maria Aparecida Moysés era uma das poucas vozes a alertar para a banalização do diagnóstico de TDA-H e a medicalização da infância – esse um milhão de compartilhamentos mostra que, à voz dela, somaram-se outras. Ainda bem.

Acho que foi Jung que disse que um psicoterapeuta não pode conduzir seu cliente além do que foi na sua própria análise. Parafraseando-o, as famílias não podem questionar a medicalização se não conhecerem de fato o que está envolvido. Assim, é importante nos somarmos a essas vozes que questionam o “deus mercado” e suas pílulas mágicas.

 

Publicado originalmente em 28 de junho de 2017
(foto: Paul Turnbull  – www.freeimages.com)

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