Estava ontem num grupo de escuta com professoras de uma escola que acompanho. Essa é uma ação proposta pela equipe multiprofissional da qual faço parte, e tem como objetivo proporcionar um espaço de escuta e de fala nesse momento da pandemia, bem como conversar sobre a importância do cuidado de si e da escola criar espaços de discussão coletiva como forma de acolher os educadores, possibilitando que falem sobre como estão se sentindo e como estão lidando com os desafios atuais.
É um momento especialmente delicado, pois as aulas presenciais estão sendo retomadas. É um processo com muitas restrições e cuidados, com escalonamento de alunos, sem obrigatoriedade de presença e observação de todas as medidas sanitárias. Isso não significa que seja feito de forma tranquila pelos professores, pois muitos ainda não estão vacinados, e os números da pandemia continuam extremamente preocupantes.
Nesse cenário, é fundamental poder falar sobre os sentimentos – a angústia com toda a situação, a impaciência, o sentimento de não aguentar mais convivendo com o medo de ser contaminado, mesmo vacinado, por ter uma comorbidade. Imagine o turbilhão de sentimentos quando uma criança de três anos se abraça em suas pernas, e o professor não pode corresponder como faria? Ao mesmo tempo em que teme ser contaminado, ouve com alegria as crianças dizerem que não aguentavam mais de saudades.
Sentimentos nunca experimentados aparecem, como o de ser estranhamente familiar para aquela criança que só conheceu por vídeo anteriormente. O medo de ser invadido pelas perguntas da família, ao compartilhar o número do celular, vai sendo vencido, e essa passa a ser uma comunicação mais comum e organizada – ainda que não conte com o subsídio governamental (pois a conta do celular, uso do chip e aparelho são subsidiados pelo professor, sem nenhum ressarcimento).
Uma professora relata que a mãe pergunta, ao trazer o aluno: “professora, é seguro deixar ele aqui?”. Uma pergunta imensa, de resposta impossível, envolvendo uma enorme responsabilidade e decisões extremamente desafiadoras. Nenhum professor pode afirmar isso com certeza, por mais que todos os cuidados sejam tomados. Andar na incerteza, aliás, se tornou um movimento cotidiano para os professores, com toda sua intensa cobrança emocional. A mãe decidiu não deixar a criança.
Quando converso com as professoras, me sinto um pouco nesse lugar de quem gostaria de ter alguma resposta boa, clara, que ajudasse a pessoa a se sentir melhor e mais esperançosa. Mas também não tenho essa resposta. Isso faz com que eu me sinta muito próxima dessas professoras, nesse lugar desconhecido, quando estamos diante de um desafio novo, fazendo algo com o que não temos experiências anteriores para nos apoiar.
Isso me lembrou a jornada do herói. O professor e mitologista Joseph Campbell escreveu sobre isso em seu livro O herói de mil faces. A jornada do herói é uma narrativa mítica, que se repete em diversas culturas. Basicamente, conta como o herói, que vivia despreocupado, é convocado para uma espécie de missão, e passa a enfrentar enormes desafios até chegar à vitória final – a conquista do objetivo é também uma conquista de si mesmo, e o herói se transforma em sábio ao final da jornada.
Comentei com as professoras que as via, e a eu mesma, naquele momento da jornada em que o herói não quer ir adiante, mas não há outra alternativa – é o momento do herói relutante. Em Guerra das estrelas (que exemplifica de forma brilhante a jornada do herói), Luke Skywalker conhece Obi Wan Kenobi e é convidado por ele para ir para Alderan e partir em uma jornada de aventuras, mas tem receio e alega várias impossibilidades, como estar preso a um trabalho que não gosta. Em casa, discute com seu tio sobre seu desejo de partir e sai aborrecido para refletir. Ao voltar para sua aldeia, porém, Luke a encontra destruída. Seu lugar de referência não existe mais, e todas as pessoas que conhecia e amava estão mortas. Luke é impelido a partir com Obi Wan – ele não pertence mais a lugar algum, e a jornada se torna sua realidade.
É assim que estamos nesse momento – a escola que conhecemos antes não existe mais, e uma nova jornada de aventuras nos convoca. Estamos relutantes, mas caminhamos. Que a Força esteja conosco!
(imagem: Star Wars)
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