A questão da avaliação de alunos com deficiência ou outras questões me parece a grande chave para a sistematização da filosofia da inclusão escolar.
Isso se justifica por que as escolas tendem a preservar formas de avaliação tradicionais. Não só a prova escrita, que ainda é a grande campeã, como chamadas orais (só que com nomes mais bonitinhos) e avaliações surpresa. A lógica da avaliação está grandemente alicerçada naquilo que é conveniente para o professor e para a escola – ainda que pareça estranho achar conveniente corrigir uma montanha de provas!
É conveniente porque não é preciso criar algo novo – basta fazer o mesmo, repetidas vezes, por mais que também seja trabalhoso e insatisfatório.
A avaliação é um problema para a escola no que se refere ao “para quê” avaliamos. A resposta correta, que é para adequar os processos de ensino àquilo que o aluno demonstra saber, muitas vezes, não passa de um formalismo. Pois nem sempre que um aluno não sabe algo, e a avaliação indicou isso, ele recebe a devida atenção para superar essa dificuldade – é a lógica da “matéria dada”. Quem pegou, pegou. Quem não pegou, vai para o apoio, professor particular, e algumas vezes é convidado a procurar o psicólogo porque “não está aprendendo”.
O grande problema por trás disso é a expectativa de que todos devem aprender a mesma coisa no mesmo tempo e do mesmo jeito. Ora, se pensarmos na escola inclusiva, esse tipo de pensamento deve sofrer um giro de 180 graus. Se antes o foco estava no ensino, hoje deve estar na aprendizagem. Portanto, não se pode parar no “dar a matéria”: o que interessa é identificar se os alunos aprenderam, o que aprenderam e como fazer para avançar a partir daí.
Isso serve para todos os alunos. Antes de falar nas especificidades dos alunos com deficiência, é preciso lembrar que a dificuldade de avaliar e adequar o ensino às necessidades do aluno não se restringe a esse pequeno grupo, infelizmente. Trata-se de uma postura da escola que precisa ser revista. “Mas como vou avaliar uma a um? É impossível!”. Bom, se é impossível, também é impossível focar na aprendizagem. O que é pior: continuar a fazer uma coisa que já se sabe que não dá certo ou tentar a fazer as coisas do jeito que precisam ser feitas, ainda que difíceis?
O problema, na minha opinião, não está no grau de dificuldade em fazer avaliações mais personalizadas. Está na crença do professor que ele não consegue fazer isso. E, claro, como um professor sozinho não faz verão, está na crença da escola que o jeito tradicional funciona.
Então, é preciso olhar pra tudo isso para discutir avaliação de alunos com deficiência. O buraco é mais embaixo, percebem? Vou falar mais desse buraco no próximo post.
Publicado originalmente em 27 de junho de 2017.
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