O título do artigo é provocante: Temos prestado atenção? Anestésicos educacionais em tempos de crise, de Gerd Biesta, pedagogo e professor na Universidade de Edimburgo. O assunto é o impacto provocado pela pandemia do Covid-19 na educação.

O autor começa comentando o grande número de trabalhos científicos publicados sobre o assunto (financiados, ao redor do mundo, por agências de financiamento à pesquisa científica, realidade cada vez menos comum por aqui), assim como artigos nas redes sociais, discutindo os prejuízos que o impacto da pandemia na trajetória educacional desses alunos pode criar em sua aprendizagem, mas destacando que, sem dúvida, o principal foco das discussões tem sido o aumento da desigualdade educacional.

Estudar na pandemia é uma atividade muito dependente de recursos tecnológicos, e a exclusão digital no Brasil se agravou neste período. Considere-se, por exemplo, o projeto de lei que destinava verbas para garantir acesso à internet para estudantes das escolas públicas, aprovado pelo Senado em fevereiro de 2021 e vetado pelo presidente em março. O veto foi derrubado pelo Congresso e pelo Senado em junho.

Sem verbas para garantir o acesso, como os alunos estavam fazendo para estudar remotamente na pandemia? No geral, as atividades eram impressas e entregues, um pouco menos eram realizadas e devolvidas, e as conversas entre professores e familiares eram feitas através do celular particular de professores (há poucas notícias sobre a entrega de chips e aparelhos para alunos e professores – não há verbas para isso, como vimos). A situação mais ou menos recorrente é: a família dispõe de um celular apenas, geralmente da mãe, que o leva ao trabalho durante o dia. Não dispõe de internet banda larga, apenas pacote de dados, de alcance limitado. Ou seja, acreditar que houve uma interação remota – não significativa, mas pelo menos suficiente – durante a pandemia entre escolas e estudantes é fantasioso (pelo menos no que se refere às escolas públicas).

Em seu artigo, Biesta reitera que a crise da pandemia deixou clara a importância da educação pública, que deve atender aqueles cujos recursos próprios são limitados, e que isso deve ser explicitado, sob pena de repetirmos mecanicamente o discurso abstrato de que “a educação deve ser para todos”, e perder de vista que aqueles que mais dela necessitam estão desassistidos, pois não têm com quem contar além do poder público (que é ineficiente, quando não ausente).

Em relação ao possível atraso no aprendizado, Biesta argumenta que, com tudo isso, o aprendizado não parou. As crianças continuaram a aprender muitas coisas em casa, e caberá às escolas considerar esses saberes quando as aulas forem retomadas presencialmente em ritmo próximo ao normal. Ainda segundo Biesta:

“Na extremidade mais política do espectro, lições importantes também podem ter sido aprendidas. Que nem todas as vidas importam igualmente; que o dinheiro ainda faz a diferença que faz a diferença; que aqueles que fazem o trabalho mais essencial para manter a sociedade em andamento tendem a ganhar menos e frequentemente têm contratos de trabalho precários; que os países diferem enormemente na qualidade e no investimento na saúde pública, se é que têm esses sistemas em primeiro lugar; e que alguns políticos são covardes populistas que são simplesmente incompetentes em seu trabalho”.

Mas o apelo de Biesta, enunciado logo no título, é de quanto temos conseguido prestar atenção nisso, e quanta atenção nos foi permitido prestar. Se estivermos prestando atenção, saberemos que essa crise não é nova, e faz sentido diante de muitas outras, como a crise ambiental e a econômica. E esta pergunta deve ser respondida individualmente por cada um de nós. A Biesta, morador do norte da Europa, a pandemia afetou pouco. Muitos alunos e alunas das nossas escolas públicas já não podem dizer o mesmo, assim como suas famílias.

Mas o ponto alto do artigo de Biesta é que não se pode reduzir a educação apenas à aprendizagem, no sentido do objeto de trabalho das escolas. Para ele, o que “distingue a educação não é aprender – o que pode acontecer em qualquer lugar, com ou sem educação – mas ensinar. E o gesto básico do ensino é tentar captar e dirigir a atenção de outro ser humano […]”. Essa é a função estética da educação, possibilitar a emergência de estudantes despertos para o mundo e, através disso, despertá-los para si mesmos. Junto a ela, opera uma outra função, anestética-anestésica, buscando exatamente o oposto, ou seja, manter os estudantes em um estado de entorpecimento, oferecendo-lhes distrações, retirando-os da condução de seu próprio processo de aprendizagem. O que é preocupante é justamente essa escassez da atenção, mesmo diante de uma abundância de crises e de sua intensidade.

Giesta discute se o foco na aprendizagem, traduzido pela busca da eficiência das políticas educacionais demostrada pelo bom posicionamento nos rankings, resultará numa educação estética ou anestética-anestésica. É uma pergunta inquietante.

Fico pensando como essa questão se coloca para a educação pública brasileira atravessando a pandemia. Ou seja: o quanto do que foi proposto pelas políticas educacionais de fato objetivou o crescimento dos estudantes diante de suas experiências na pandemia, e o que apenas se reduziu à prestação de contas, atribuição de frequência e preenchimento da documentação escolar, para garantir que a sociedade ouça dos gestores: “fizemos a nossa parte”. Em que medida a condução desses processos educacionais na pandemia acabou contribuindo para uma educação mais alienada e desconectada da vida real, pouco crítica e de má qualidade? Essa é uma pergunta cuja resposta tememos, mas precisamos ter coragem de fazê-la.

(imagem: Stockphotos)

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